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O fim do Couve-Flor, segundo Cristiane Bouger

cris foto fim

Tenho pensando nos últimos dias sobre a carta que oficializa o fim do Couve-Flor.

Encontro-me agora, entre a produção do Caderno de Instruções que fiz para a Michelle Moura (parte das entrevistas do Tête-a-Tête, proposto pelo Neto Machado) e a revisão de um artigo que escrevi sobre a minha experiência na Romênia.

No intervalo entre um trabalho e outro, de forma fragmentária e simultânea, lembrei que a entrevista da Michelle foi influenciada pela proposta de entrevista que a Elisabete Finger fez comigo. A Beti propôs o formato de um programa de rádio, por sua vez, influenciado pelo link Behind the Bio no meu website (aonde mostro as capas de alguns dos discos que me influenciaram). Achei a proposta generosa e fascinante e pensei sobre como eu poderia refletir a mesma generosidade em um formato de entrevista que revelasse o que eu havia aprendido no decorrer desses anos sobre a Michelle.

E então lembrei de 2004, no do dia em que eu estava na Washington Square em Nova York, fotografando a fachada da Judson Church que havia sido fechada para reformas. As fotos eram para a Michelle porque ela adorava o Judson Dance Theater e a dança pós-moderna americana que surgiu ali, no início da década de 60. Lembro da minha frustração com as fotos. Fiquei com vergonha de dá-las de presente e compreendi que eu deveria fazer um documentário. Foi o início de Comunidade, Ativismo e a Cena Downtown, lançado no Cine Luz em Curitiba em 2006, onde as primeiras couves pink foram mostradas. Havíamos acabado de criar o coletivo Couve-Flor – Minicomunidade Artística Mundial. Na mesma noite do lançamento do documentário, fizemos a festa de lançamento do projeto Couve-Flor Tronco e Membros, no Jokers Bar. Havíamos sido contemplados com o Prêmio Klauss Vianna.

Alguns meses após a criação do Couve-Flor, eu me mudei para Nova York. Desde então,tenho dividido meus projetos entre as duas cidades. Em 2007, apresentei Walk East – Poemas Eróticos de Norma Kluster, em Curitiba. O Gustavo Bitencourt cuidou da assessoria de imprensa, o Ricardo Marinelli se responsabilizou pela produção, a Elisabete e a Michelle cuidaram da operação de luz, som e vídeo. O Neto e a Stephany Mattano, do registro. Foi absolutamente incrível contar com o suporte do Couve-Flor.

Lembro do feedback do Ricardo, no Bar do Pudim, questionando a rotina diária de movimento a qual nos propomos a realizar para sustentar o movimento que queremos em cena. Desde então, lembro do Ricardo com frequência para repensar o meu corpo em cena. Ao longo do caminho, discordei dos textos que o Gustavo escrevia como colunista do Idança. Através dele, repensei. Passei a perceber o que antes não percebia.

Há alguns anos atrás, eu pude caminhar com o Neto pelas ruas de do Queens, de Manhattan e do Brooklyn. Ele estava nos EUA para as apresentações do trabalho com o Xavier Le Roy, em Boston. Lembro de conversar com o Neto naqueles dias e de haver percebido o quanto ele havia caminhado. O trajeto dele era lindo e a experiência de compartilhá-lo foi gratificante.

Em abril deste ano a Beti veio para Nova York e dividiu o aluguel do lugar aonde eu moro. Ela acompanhou parte do meu processo no estúdio do CPR -Center for Performance Research. Eu havia retomado o trabalho Walk East para uma apresentação em Bucareste, na Romênia e outra na Mostra de Repertório do Couve-Flor em Curitiba. Ela entendeu meu samba-punk. Caminhamos pelas ruas do Brooklyn, passamos pelo P.S. 122, discutimos futuro, conversamos sobre trabalhos passados, Istambul, Berlim e Nova York. Fui vê-la dançar em um trabalho na Judson Church, do qual ela não gostou de participar. De Bucareste, acompanhei pelo facebook as apresentaçõs dela no trabalho da Susan Rethorst no Danspace Project e vi sua foto em uma crítica da Gia Kourlas, para o The New York Times. Lembro da sensação de perceber o quanto a cidade a recebeu tão bem. Havia sentido o mesmo quando gravei o meu documentário em 2004. Lembro de ter sorrido por nós.

Em julho e agosto, durante as apresentações do Ocupações Performáticas e da Mostra de Repertório em Curitiba e no decorrer de nossos e-mails e reuniões por Skype, lembro de ter percebido e vivenciado distâncias mais claras. Em Curitiba, me emocionei ao ver a Michelle dançar.

Há pouco mais de duas semanas, encontrei a Cândida Monte. Fizemos o workshop da Deborah Hay, no Movement Research. Depois do último dia do workshop, a Deborah nos reencontrou por acaso, caminhando no Tompinks Park. Tivemos a oportunidade de almoçar com ela no Yaffa Cafe, no East Village. Falamos sobre vida, trabalho e política. Com a Cândida, discuti planos de trabalho para 2012. Neste ano, prepararei a Mostra de Vídeo do Couve-Flor em Nova York.

Eu sempre estive distante do Couve-Flor, em comparação aos que vivem o dia-a-dia do Cafofo, em Curitiba. Ainda assim, quando penso no coletivo, lembro o que cada um destes artistas me ensinou e o quanto nossas relações e conversas me instigaram e me transformaram no decorrer destes anos.

Penso que oficializar o fim do Couve-Flor com uma carta (ou sete) é apenas uma maneira de dizer aos amigos, colaboradores e instituições que nos acompanharam nestes anos de intensa existência, que o que morre é o nome e a constância das nossas colaborações. A influência que propagamos uns entre os outros nos acompanhará. Em nossas diferenças encontramos o que nos aproximava. Agora, o que temos encontrado não cabe mais na estrutura e nas relações que criamos. Crescemos para além do coletivo e precisamos respirar para além dele. Seguimos como artistas independentes.

Teremos um ano para celebrar a morte do coletivo, realizando os projetos já programados para 2012. Será um ano de festividades e de passagem. Temos – todos os sete – a certeza de que este fim é necessário. Como o Gustavo disse em sua carta, nestes anos de parceria, talvez esta tenha sido a única decisão unânime do Couve-Flor. Brindemos então, sem apego, ao que se transforma em cada um de nós.

Com Amor,

Cristiane Bouger

30.dez.2011

O Fim do Couve-Flor segundo Elisabete Finger

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Como bem disse o Neto: “O Couve-Flor Minicomunidade Artística Mundial nasceu em Curitiba-PR, de parto normal. Ninguém sabe direito quem é o pai, mas a mãe são 7”. Cristiane Bouger, Elisabete Finger, Gustavo Bitencourt, , Michelle Moura, Neto Machado, Ricardo Marinelli e Stephany Mattanó se uniram em 2004 em torno da idéia de criar arte em colaboração, sonhando em contribuir com um coletivo para a formação de uma comunidade artística maior, sonhando que as nossas ações, mesmo sendo minis ou locais, poderiam se multiplicar, irradiar, contaminar o mundo com efeitos criativos.

Nestes 7 anos de vida muita coisa aconteceu nesta minicomunidade. Colocamos no mundo diversos projetos artísticos, individuais e coletivos, entre dança, teatro, artes visuais e mais uns quantos inclassificáveis. Nesta horta conjunta cada um de nós foi crescendo e produzindo, foi viajando e voltando, foi separando e juntando. A Stephany se afastou, a Cândida Monte se aproximou, o Gustavo deixou e voltou a ser artista pelo menos umas 3 vezes. Juntos nós entramos e saímos de crises econômicas, administrativas, conjugais, emocionais; tivemos casa própria, passamos por alagamentos, enfrentamos pombos, cupins e ratos, contamos dinheiro pra pagar o aluguel, comemoramos juntos as boas notícias e toleramos as más, ficamos deprimidos, entusiasmados, eufóricos, fomos felizes e tristes, sobrevivemos, prosperamos, crescemos, amadurecemos. Nos distanciamos muitas vezes, nos reaproximamos algumas, mas a cima de tudo nos transformamos muito.

Há um ano conquistamos um grande passo. Com o projeto Couve-Flor Manutenção Coletiva, subvencionado pela Petrobrás Cultural conseguimos finalmente planejar dois anos de atividades contínuas, incluindo nossas pesquisas artísticas individuais e nosso desejo de criar e partilhar arte em comunidade. As iniciativas como o Ocupações Performáticas, o Tete-a-Tete (ciclo de entrevistas), o Programa de Residências Artísticas Temporárias vieram se somar aos outros tantos pequenos e grandes eventos que já aconteceram no Cafofo Couve-Flor desde o seu primeiro ano de vida em 2007, apostando sempre em trocas criativas.

Lá no início deste casamento, o Ricardo dizia que o Couve-Flor era “uma tentativa de contribuir com um coletivo para a formação de uma comunidade”. Hoje, sinto muito orgulho em dizer que SIM, contribuímos, fizemos, acontecemos, com o melhor que poderíamos oferecer JUNTOS. Ainda temos muito a fazer por este ideal de comunidade, é verdade, mas vamos continuar a batalha de outras formas. Nossos interesses e práticas artísticas nos levaram para caminhos e escolhas diferentes, vejo que crescemos e nos transformamos para fora e para além do Couve-Flor, e concordamos hoje que não faz sentido continuarmos unidos em torno desta estrutura se o que queremos realizar agora já não cabe mais dentro dela.

Escrevemos hoje esta série de cartas individuais porque como sempre dentro do Couve-Flor nos foi impossível aceitar que uma única voz desse conta da pluralidade que somos. Esta ação-manifestaçao tem o sentido de dividir com vocês parceiros, patrocinadores, apoiadores e amigos mais este momento importante da nossa história coletiva. Escrevemos para tornar pública uma decisão que para nós ganhou a urgência e a grandeza de ser anunciada: mesmo que o mundo não acabe, o Couve-Flor Minicomunidade Artística Mundial acaba em dezembro de 2012. Começamos agora uma contagem regressiva que nos permite organizar a vida, terminar tarefas, chorar com calma, rir de vagar, e preparar uma festa digna de um bom vestidinho preto e de uma boa champagne.

Para quem está de fora eu queria que tomassem esta carta como uma afirmação do orgulho que sinto com relação as ações que produzimos e também da responsabilidade que temos e sempre teremos para com as obras que colocamos no mundo e para com os projetos que ainda estão em andamento. Queria deixar claro também que o fim do nosso casamento não é tabu nem assunto proibido. Pode perguntar, pode falar sobre, pode convidar a gente pra dividir noite em festival, pra fazer conferência pública, e até pra um jantarzinho intimo na sua casa. Vamos nos descasar mas continuamos nos apoiando e seguimos respeitando os artistas que somos.

Para quem está de dentro, para todos os outros couves, eu queria deixar aqui uma declaração de amor e de respeito pelos artistas que vocês são. Vocês fazem parte da minha família artística. Obrigada por tudo que fizemos juntos e por tudo que cada um de vocês fez separado contribuindo para este sonho coletivo. Aceito e acolho as tristezas pessoais de cada um, inclusive a minha, mas a tristeza que sinto divide lugar com a felicidade e o orgulho pelo que construímos, e a consciência de que o fim de alguma coisa é sempre o começo de outra.

Feliz fim e começo (de ano, do mundo e do que quer que seja) para todos nós!

*beijo no ombro!

Elisabete Finger

30.dez.2011

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